18 de março de 2016

História

HISTÓRICO DO DEPARTAMENTO DE HEMODINÂMICA DA SOCERJ/SOHCIERJ

Edison Carvalho Sandoval Peixoto, Esmeralci Ferreira, Leslie Albuquerque Aloan
Rev SOCERJ. 2009;22(2):121-124.
INTRODUÇÃO
Ao ensejo das comemorações do 15º aniversário da Sociedade de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista do Estado do Rio de Janeiro (SOHCIERJ), apresentamos de forma sucinta a evolução dessa especialidade nesta Cidade. A história da Cardiologia Intervencionista do Rio de Janeiro confunde-se com os primórdios da hemodinâmica nacional e é parte integrante e atuante na evolução da prática da especialidade no país.
INICIO DA INTERVENÇÃO NO RIO DE JANEIRO: MARCAS DO PIONEIRISMO

Em fins de 1949, Arthur de Carvalho Azevedo realiza o primeiro cateterismo cardíaco no Rio de Janeiro, no Hospital Nossa Senhora das Vitórias, que fazia parte do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários (IAPC), hoje Instituto Nacional de Cardiologia do Ministério da Saúde1,2.

A primeira coronariografia não seletiva, com oclusão de ambas as veias cavas, foi realizada por Stans Murad Netto, em 19632. Em novembro de 1966, José Eduardo Sousa, em São Paulo, realiza a primeira coronariografia seletiva; e no Rio de Janeiro, Mason Sones, da Cleveland Clinic, a convite de Arthur de Carvalho Azevedo, realiza-a em julho de 1967 no Hospital Nossa Senhora das Vitórias2,3.

Acompanhando esse exame estavam os médicos Carlos Américo Lucena Costa e Armando Ney Toledo que, nessa mesma semana, absorvendo os ensinamento de Sones, iniciam-se na realização de coronariografias.

Em 1980, Leslie Albuquerque Aloan et al. publicam o primeiro livro na especialidade em português – “Hemodinâmica e angiocardiografia: obtenção de dados, interpretações e aplicações clínicas4.”

Os procedimentos de valvuloplastia pulmonar têm início na década de 80. Rosa Célia Pimentel Barbosa relata, em 1987, ter iniciado sua experiência em dezembro de 19845. De forma quase concomitante, Francisco Chamié (por comunicação pessoal 2009) e Marco Aurélio Santos dão início aos seus primeiros relatos6. Destaque nas intervenções em cardiopediatria deve ser atribuído ao tratamento das coartações da aorta, realizados por Marco Aurélio Santos e Luis Carlos Simões, no Instituto Nacional Cardiologia7. Sem perder o foco no desenvolvimento da hemodinâmica em pediatria, Rosa Célia Pimentel Barbosa, em 1996, toma a frente de um audacioso projeto para o tratamento de crianças carentes, denominado Pró- Criança Cardíaca.

A valvoplastia aórtica foi implementada no Brasil, em 1987, pelo cardiologista brasileiro Paulo Rocha8, radicado na França que, junto com Norival Romão, iniciam os primeiros procedimentos9,10. Nesse mesmo período, Rafael Nonato Pzrytyk auxilia um dos franceses8 na realização de um procedimento de valvuloplastia aórtica. Os procedimentos de valvoplastia mitral foram iniciados em julho de 1987, por Edison Carvalho Sandoval Peixoto11,12.

Em período subsequente, Rafael Nonato Pzrytyk13 e Norival Romão iniciam sua experiência. Kenji Inoue vem ao Brasil em 1990, e realiza no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1990, o primeiro procedimento dessa técnica, auxiliado por Edison Carvalho Sandoval Peixoto, que absorve a técnica e realiza, no mesmo dia, o segundo procedimento, auxiliado por Paulo Sergio de Oliveira14, com supervisão do próprio Inoue. Na primeira metade dos anos 80, cardiologistas e radiologistas intervencionistas realizam embolizações e angioplastias periféricas. Os cardiologistas Mario Salles, Ronaldo Villela, Milton Godoy y Godoy e Edison Carvalho Sandoval Peixoto realizam embolização para tumores renais e hemorragia digestiva, e angioplastias renal e de outras artérias periféricas, relatando, a seguir, sua experiência15-18.

Nos dias de hoje, a intervenção periférica em artérias renais, carótidas e membros inferiores fazem parte do dia-a-dia do cardiologista intervencionista, uma vez que a grande experiência em procedimentos coronarianos é facilmentetransportada para esses procedimentos, sem necessidade de uma curva de aprendizado com o manuseio do material.

A primeira angioplastia no Brasil foi realizada por Constantino Costantini, em 197919, em Curitiba (PR) e, no Rio de Janeiro, por Pierre Labrunie e Mario Salles Netto15,18. Paralelamente, Paulo Cesar Monteiro de Carvalho contribuiu para o desenvolvimento inicial dessa técnica20, relatando inclusive a intervenção no infarto agudo do miocárdio. O implante de stent coronariano teve o seu início no ano de 1991, com o implante de um stent Gian-Turco Robin, por Ronaldo Vilella, em uma condição de emergência, devido à dissecção e oclusão de artéria coronária circunflexa. No mesmo período, Cyro Vargues Rodrigues e Edmundo André Viveiros Pessanha iniciam sua experiência, dando grande visibilidade ao método.

A implementação dos stents farmacológicos, no Estado do Rio de Janeiro, ocorreu de forma tão meteórica que fica impossível determinar a sua primeira utilização. Entretanto, sabe-se que proporcionalmente, o Rio de Janeiro é a capital que mais utiliza essa forma de tratamento da doença arterial coronariana. Na pesquisa e início da terapia com células-tronco, o Rio de Janeiro se destacou com grande participação de Hans Fernando Dohmann, Antonio Manoel Neto, Rogério Moura, Stans Murad Netto, entre outros.

Finalizamos essa primeira parte histórica relembrando grandes mestres que não podemos deixar de mencionar. Até a década de 70 as doenças eram pouco conhecidas, como as endomiocardiopatias que tiveram seu diagnóstico clínico e perfil hemodinâmico estabelecidos graças ao pioneirismo de Nelson Botelho Reis e Cantídio Drumond Neto. Ambos, na 6ª. Enfermaria do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia (RJ), realizaram não somente esse trabalho mas também foram responsáveis, pela formação de conceituados cardiologistas e intervencionistas no Rio de Janeiro21,22. Outro grande mestre da intervenção foi Siguemituzo Ariê que, na década de 80, no Instituto do Coração, em São Paulo, disseminou o ensino prático da angioplastia e outras intervenções para grande parte dos intervencionistas do Rio de Janeiro e do Brasil.

CRIAÇÃO DA SOHCIERJ

Em 1994, durante a presidência de Francisco Manes Albanesi Filho, a SOCERJ, em Assembleia Geral no seu Congresso anual, aprovou a criação do Departamento de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista do Estado do Rio de Janeiro e sua primeira diretoria. Seu primeiro presidente foi Edison Carvalho Sandoval Peixoto, tendo José Carlos Monteiro de Mello e Francisco Cabral Cardoso como secretário e tesoureiro, respectivamente. Coube a esses intervencionistas a elaboração e a aprovação do estatuto do Departamento de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, começando já com todos os sócios do Estado do Rio de Janeiro na Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, nas suas respectivas categorias.

Em 17 de dezembro de 1995, no Hotel Glória, realizou-se o I Congresso de Cardiologia Intervencionista – Uma Abordagem Direcionada ao Clínico, tendo como presidente Esmeralci Ferreira. Esse Congresso foi o pioneiro no Brasil em realizar o intercâmbio científico entre cardiologistas clínicos e intervencionistas. Foi também o primeiro congresso em que houve um Simpósio paralelo de enfermagem e tecnólogos em hemodinâmica.

Em 1996, Leslie Aloan, eleito presidente do Departamento, para maior independência administrativa e econômica, transforma o Departamento em Sociedade de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista do Estado do Rio de Janeiro. Desde a fundação da SOHCIERJ, o presidente do Departamento e da Sociedade tem sido o mesmo.

Em 1998, foi eleito presidente Helio Roque Figueira que retomou as atividades científicas, mas dessa feita com o Simpósio de Hemodinâmica ocorrendo dentro congresso da SOCERJ. Iniciam-se, nessa fase, os eventos com apresentação de casos ao vivo, direto dos laboratórios de hemodinâmica.

Em 2000, foi eleito presidente Rafael Nonato Pzrytyk. Nesse período, a Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI) decide que o presidente da SOHCIERJ passe a ser o representante regional dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Nessa fase, o Simpósio regional foi um evento pré-congresso da SOCERJ, com grande audiência; no ano seguinte, o Simpósio ocorreu dentro do congresso da SOCERJ, simultâneo a outras sessões, não tendo sido bem-sucedido.

Em 2002, Cyro Vargues Rodrigues assume a presidência e, na sua gestão, o Simpósio voltou a ser uma atividade pré-congresso. Houve uma grande reestruturação interna e a SOHCIERJ, progressivamente, aumentou a sua presença dentro da SOCERJ. Durante sua gestão, realizou-se na cidade do Rio de Janeiro o XXIV Congresso da SBHCI, presidido por Esmeralci Ferreira.

Em 2004, Julio César Machado Andréa presidiu a SOHCIERJ. As reuniões passaram a ser periódicas, com grande participação de todos os sócios, além do Simpósio pré-congresso da SOCERJ, o que aumentou a troca de experiência e aproximou ainda mais os intervencionistas do Estado do Rio de Janeiro.

Em 2006, foi eleito presidente Luis Antonio Ferreira de Carvalho. Na sua gestão foi eleita a cidade do Rio de Janeiro como sede do congresso da SBHCI e da Sociedade Latino-Americana de Cardiologia Intervencionista (SOLACI).

Em 2008, foi eleito presidente Esmeralci Ferreira. No ano de 2009, o X Simpósio terá pela primeira vez a participação especial da Academia Nacional de Medicina (ANM), com grande intercâmbio entre hemodinâmica e cardiologia clínica e os imortais da ANM. Neste ano de 2009, pela quinta vez, o Estado do Rio de Janeiro será a sede do congresso da SBHCI.

Na gestão atual, a evolução do site (http://www.sohcierj.org.br) tornou-se expressiva graças ao dedicado e solitário trabalho de Edgard Freitas Quintella. Da mesma forma, teve início as comunicações impressas através do Jornal da SOHCIERJ, sob a responsabilidade dos editores César Rocha Medeiros e José Ary Boechat, diretor de publicação e diretor científico, respectivamente.

Finalmente, uma outra meta para os dias atuais, é a unificação da SOHCIERJ e do Departamento de Hemodinâmica da SOCERJ como entidade única perante as Sociedades Brasileiras de Cardiologia, a de Hemodinâmica e da própria SOCERJ.

Resumo dos Congressos de Intervenção ocorridos no Rio de Janeiro e seus presidentes:

1977 II Congresso Brasileiro de Hemodinâmica – Pierre Labrunie

1979 IV Congresso Brasileiro de Hemodinâmica – Edison Carvalho Sandoval Peixoto

1991 XIII Congresso Brasileiro de Hemodinâmica – Leslie Albuquerque Aloan

1995 I Congresso Regional de Hemodinâmica para o Clínico – Esmeralci Ferreira

2002 XXIV Congresso Brasileiro de Hemodinâmica Esmeralci Ferreira

Eventos em 2009

Neste ano de 2009, dois grandes eventos estão programados para o mês de junho. No primeiro, Helio Roque será o presidente do XXXI Congresso da SBHCI, com grandes nomes do cenário nacional e internacional. E, abrindo o Congresso da SOCERJ, o X Simpósio da SOHCIERJ trará pela primeira vez a presença da Academia Nacional de Medicina no aniversário de 180 anos de sua fundação.

Este editorial, cujos autores estão listados em ordem alfabética, foi produzido com o objetivo de resgatar a memória dos fatos mais marcantes da história da intervenção carioca e fluminense e da criação da SOHCIERJ. Como a memória e algumas poucas referências servem como escassa fonte de consulta, desculpamo-nos com aqueles que não foram citados.

Em nome de todos os intervencionistas testemunhamos que o mais gratificante para todos é a percepção do grande desenvolvimento da cardiologia do Rio de Janeiro e sua efetiva participação na cardiologia brasileira.

Agradecimentos

Nossos agradecimentos a todos os ex-presidentes da SOHCIERJ que conduziram essa Sociedade de maneira competente e ética, o que é demonstrado pela sua grande organização. Agradecemos ainda a todos os ex-presidentes e à atual gestão da SOCERJ, sob a presidência da Dra. Maria Eliane Campos Magalhães, e uma homenagem especial ao Dr. Francisco Manes Albanesi Filho, pelo grande incentivo no início da nossa Sociedade. Ao Dr. Ronaldo de Souza Leão Lima, pela cessão deste espaço na Revista da SOCERJ e, finalmente, a todos os sócios da SOCERJ e SOHCIERJ, pelo grande apoio a todas as atividades da SOHCIERJ.

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Referências:

1. Abrantes IB. Considerações históricas sobre a cardiologia no Estado do Rio de Janeiro. Rev SOCERJ. 2005;18(2):96-100.

2. Aloan LA. Considerações históricas sobre a cardiologia no Estado do Rio de Janeiro. Rev SOCERJ. 2005;18(4):278-82.

3. Albanesi Filho FM (org). 50 Anos de história da cardiologia do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: SOCERJ; 2005.

4. Aloan L. Hemodinâmica e angiocardiografia: obtenção de dados, interpretação e aplicações clínicas. Rio de Janeiro: Atheneu; 1980.

5. Barbosa RCP, Baptista EM, Andrea JCM, et al. Valvuloplastia pulmonar. [Abstract]. Revista de Resumos do 4º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro; 1987:51-52.
6. Santos MA, Simões LC, Rezende AE, et al. Valvuloplastia pulmonar. Análise da relação diâmetro do balão/ diâmetro do anel no sucesso do procedimento. [Abstract]. Rev SOCERJ. 1989;2(supl I):24.

7. Santos MA, Simões LC, Resende AE, et al. Coartação de aorta no neonato: Nova perspectiva com angioplastia transductal. [Abstract]. Rev SOCERJ. 1989;2(supl I):24.

8. Cribier A, Rocha P, Savin T, et al. Is percutaneous transluminal valvuloplasty a good alternative to surgical valve replacement in aortic stenosis in elderly patients? Arq Bras Cardiol. 1986;47:97-100.

9. Romão N, Pessanha EAV, Zaniolo W, et al. Dilatação por balão de estenose valvular aórtica em pacientes idosos. [Abstract]. Arq Bras Cardiol. 1987:49 (supl I):101.

10. Romão N, Pessanha EA, Abrão C, et al. Aortic valve stenosis. Dilatation with balloon catheterization. Arq Bras Cardiol. 1988;51:391-95.

11. Peixoto ECS. Valvoplastia mitral por via transeptal. Uma nova técnica de tratamento da estenose mitral. Ars Curandi Cardiol. 1987;9(71):9-10.

12. Peixoto ECS, Baptista EM, Vieira WJM, et al. Valvoplastia mitral por via transeptal. Resultados e experiência do primeiro ano. Rev SOCERJ. 1988;1:37-44.

13. Przytyk RN, Carvalho LA, Feres JGF, et al. Valvuloplastia mitral percutânea com cateter-balão no tratamento da estenose mitral. [Abstract]. Arq Bras Cardiol. 1990;55(supl B):189.

14. Oliveira PS, Peixoto ECS, Labrunie P, et al. Valvoplastia mitral pela técnica de Inoue. Primeiros casos no Brasil. [Abstract]. Arq Bras Cardiol. 1990;55(supl B):202.

15. Villela RA, Labrunie P, Salles Netto M. Dilatação transluminal de coronárias, renal e artérias periféricas. Relato de 6 casos. [Abstract]. Revista de resumos do 6º Congresso Brasileiro de Hemodinâmica e Angiocardiografia. Maceió: 1981;22.

16. Peixoto ECS, Baptista EM, Godoy MG, et al. Terapia invasiva em hemodinâmica e radiologia intervencionista. Angioplastia renal, ilíaca, femoral e poplítea. Embolização. [Abstract]. Arq Bras Cardiol. 1987;49(supl I):107.

17. Peixoto ECS, Vieira WJM, Baptista EM, et al. Angioplastia de artéria ilíaca, femoral, poplítea e renal. Resultados imediatos e evolução. Rev SOCERJ. 1989;2:33-40.

18. Salles Netto M, Villela R, Labrunie P. Nossa experiência em angioplastia transluminal de artérias coronárias e renais. [Abstract]. Revista de resumos do 8º Congresso Brasileiro de Hemodinâmica e Angiocardiografia. Foz do Iguaçu: 1984;33-34.

19. Costantini C, Garcia DP, Pesarini A, et al. Arterioplastia coronária: aspectos técnicos, hemodinâmicos e metabólicos. Relato de caso. [Abstract]. Revista de Resumos do 4º Congresso Brasileiro de Hemodinâmica e Angiocardiografia. Rio de Janeiro. 1979: 28-29.

20. Carvalho PCM, Brito CEJP, Sousa EM, et al. Angioplastia percutânea transluminal no infarto agudo do miocárdio. [Abstract]. Revista de resumos do 9º Congresso Brasileiro de Hemodinâmica e Angiocardiografia. Fortaleza: 1986;13-14.

21. Drumond Neto C. Endomiocardiofibrose. Tese de Livre- Docência. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1970.

22. Reis NB, Drumond Neto C, Soares RVG. Endocardiopatias crônicas. In: Benchimol AB, Schlesinger P (eds). Enciclopédia Médica Brasileira. Rio de Janeiro: Livro Médico; vol 2, seção 5; 1978.